Correção do Solo - Embrapa Hortaliças
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A grande maioria dos solos brasileiros onde se cultiva a batata são ácidos, ou seja, com pH abaixo da faixa ideal de cultivo, entre 5,5 e 6,0. A calagem promove importante modificação no ambiente radicular, pois diminui a acidez do solo, fornece Ca e Mg e aumenta a disponibilidade e eficiência na utilização de vários nutrientes. Assim, apesar de ser considerada relativamente tolerante à acidez do solo, a cultura da batata responde positivamente à aplicação de corretivos da acidez.
A amostragem de solo é a primeira e mais crítica etapa de um bom programa de correção do solo e adubação. Para que a análise química represente adequadamente as características do solo avaliado, é de fundamental importância que a amostragem seja feita seguindo alguns critérios básicos:
- Dividir a área em glebas homogêneas, nunca superiores a 20 hectares, de acordo com a topografia, cobertura vegetal, cultivo precedente, drenagem, textura, cor, grau de erosão, profundidade e tipo de solo, amostrando cada área isoladamente;
- De cada gleba, deve-se retirar várias subamostras em ziguezague, de 10 a 20, percorrendo toda a área homogênea;
- Antes da coleta, deve-se afastar os detritos, vegetação e restos culturais da superfície do solo, bem como, evitar pontos próximos a cupinzeiros, formigueiros, currais, depósitos de corretivos ou fertilizantes e manchas de solo;
- Para a cultura da batata, a amostragem deve ser realizada a profundidade de 0 a 20 cm;
- As amostras podem ser coletadas com trado de rosca, trado calador, trado holandês, pá reta, ou mesmo enxadão;
- Após a reunião e homogeneização das subamostras, devem ser retiradas cerca de 500 g de solo para envio ao laboratório;
- A coleta das amostras e o envio destas para o laboratório devem ser realizados pelo menos três a quatro meses antes do plantio e,
- Cada amostra deve ser adequadamente identificada.
A quantidade de corretivo deve ser determinada com base na análise química e física do solo, no poder relativo de neutralização total (PRNT) do corretivo e na profundidade de incorporação. Recomenda-se muito cuidado no cálculo da calagem, pois calcário em excesso eleva o pH acima de 6,0, situação que favorece o ataque da sarna-comum, uma das doenças de maior dificuldade de controle na cultura da batata.
A necessidade de calagem pode ser determinada por três métodos: o método baseado nos teores de Ca, Mg e Al trocáveis no solo, o método da solução tampão SMP e o método da saturação por bases.
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Consideram-se a susceptibilidade ou a tolerância da cultura à acidez trocável (considerando a máxima saturação por Al²+ tolerada pela cultura - mt) e a capacidade tampão do solo (Y). Este método também visa elevar a disponibilidade de Ca²+ e Mg²+ de acordo com as necessidades das culturas destes nutrientes (X).
Dessa forma, a necessidade de calagem em t/ha é calculada de acordo com a equação descrita a seguir (1):
NC (t/ha) = Y [Al³+ - (mt . t/100)] + [X – (Ca²+ + Mg²+)] (1)
Em que:
NC = necessidade de calagem em t/ha;
Y = capacidade tampão da acidez do solo;
Al³+ = acidez trocável em cmolc/dm-³;
mt = máxima saturação por Al³+ tolerada pela cultura em %;
t = CTC efetiva em cmolc/dm-³;
X = exigência da cultura em Ca e Mg.
Y é um valor variável em função da capacidade tampão da acidez do solo, que pode ser definido de acordo com a textura do solo, enquanto os valores de mt compreendem a máxima capacidade de saturação por Al³+ tolerada pela batateira, e X, variável em função dos requerimentos de Ca e Mg da batateira (Tabela 1).
Tabela 1. Valores de Y de acordo com a percentagem de argila do solo, valores máximos de saturação por Al3+ tolerados pela batateira (mt), e valores de X para o método dos teores de Ca, Mg e Al trocáveis.
|
Solo |
Argila (%) |
Y |
|
Arenoso |
0 a 15 |
0,0 a 1,0 |
|
Textura média |
15 a 35 |
1,0 a 2,0 |
|
Argiloso |
35 a 60 |
2,0 a 3,0 |
|
Muito argiloso |
60 a 100 |
3,0 a 4,0 |
|
Cultura |
mt (%) |
X (cmolc/dm-3) |
|
Batata |
15 |
2,0 |
Fonte: Alvarez & Ribeiro (1999).
Com base na equação (1), a quantidade de corretivo a ser aplicada considera o PRNT igual a 100% e a profundidade de incorporação de 20 cm. Se o PRNT for menor, o que é comum, ou o corretivo for incorporado a maiores profundidades, por exemplo, 30 cm, o que é bastante desejável, há necessidade de correção da dose.
Necessidade de calagem com base no método SMP
Nos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte do Paraná, a necessidade de calagem é calculada pelo método SMP, objetivando, para a cultura da batata, elevar o pH em água até 5,5 na camada de 0 a 20 cm (Tabela 2). Contudo, para batata cultivada em sistemas de rotação de culturas, após mais de um ano da aplicação do calcário, pode-se realizar a elevação do pH em água a 6,0, para não comprometer a produtividade das demais culturas que compõem o sistema.
Tabela 2. Recomendação de calcário (PRNT 100%) para elevar o pH do solo (pH em água) a 5,5 ou 6,0 em uso no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
|
Índice SMP |
pH em água a atingir |
|
|
5,5 |
6,0 |
|
|
Calcário (t/ha) |
||
|
4,4 |
15,0 |
21,0 |
|
4,5 |
12,5 |
17,3 |
|
4,6 |
10,9 |
15,0 |
|
4,7 |
9,6 |
13,3 |
|
4,8 |
8,5 |
11,9 |
|
4,9 |
7,7 |
10,7 |
|
5,0 |
6,6 |
9,9 |
|
5,1 |
6,6 |
9,1 |
|
5,2 |
5,3 |
8,3 |
|
5,3 |
4,8 |
7,5 |
|
5,4 |
4,2 |
6,8 |
|
5,5 |
3,7 |
6,1 |
|
5,6 |
3,2 |
5,4 |
|
5,7 |
2,8 |
4,8 |
|
5,8 |
2,3 |
4,2 |
|
5,9 |
2,0 |
3,7 |
|
6,0 |
1,6 |
3,2 |
|
6,1 |
1,3 |
2,7 |
|
6,2 |
1,0 |
2,2 |
|
6,3 |
0,8 |
1,8 |
|
6,4 |
0,6 |
1,4 |
|
6,5 |
0,4 |
1,1 |
|
6,6 |
0,2 |
0,8 |
|
6,7 |
0,0 |
0,5 |
|
6,8 |
0,0 |
0,3 |
|
6,9 |
0,0 |
0,2 |
|
7,0 |
0,0 |
0,0 |
Fonte: SBCS - Núcleo Regional Sul - Comissão de Química e Fertilidade do Solo - RS/SC (2004).
No caso da batateira, a recomendação é aplicar calcário para elevar a saturação por bases a 60% sempre que o valor for inferior a 50%, e procurar elevar o teor de Mg no solo ao mínimo de 8 mmolc/dm-³. Assim, a quantidade de calcário a ser aplicada e incorporada a uma profundidade de 20 cm é calculada pela equação (2):
NC (t/ha) = CTC x (60 – V1)/10 x PRNT (2)0
Em que:
NC = necessidade de calagem em t/ha a 20 cm de profundidade;
CTC = capacidade de troca catiônica em mmolc/dm-³;
V1 = saturação por bases inicial do solo em %.;
PRNT = poder relativo de neutralização total.
A velocidade de reação ou reatividade (RE) e o poder de neutralização da acidez do solo do corretivo (PN) compõem o índice PRNT. Quanto maior o PRNT, maior a qualidade do corretivo e mais rápido o seu efeito na neutralização da acidez do solo. O PRNT, então, influencia a época de aplicação, além do fato de que a dose recomendada deve ser corrigida com base nesse índice. O custo do produto por unidade de PRNT, posto na propriedade, também deve ser considerado no momento de adquirir um corretivo.
A escolha do corretivo também deve considerar a disponibilidade de Mg no solo e a necessidade das culturas. Os corretivos da acidez do solo mais comumente utilizados são os calcários agrícolas (rocha calcária moída). Existem calcários agrícolas com diferentes concentrações e proporções de Ca e Mg, sendo classificados em calcíticos, quando o teor de MgO é menor que 5%, magnesianos, quando o teor de MgO é de 5% a 12%, e dolomíticos quando maior de 12%. Assim, dependendo da situação, pode-se optar pelo uso de calcários calcíticos, magnesianos ou dolomíticos.
Além dos calcários agrícolas, outros produtos como o calcário calcinado agrícola, cal hidratada agrícola, cal virgem agrícola e escórias (silicatos de Ca e Mg) podem ser utilizados para a correção de acidez do solo. As escórias ou silicatos, além da correção da acidez e fornecimento de Ca e Mg, também fornecem silício (Si), que pode ser um elemento benéfico para a cultura da batata.
O corretivo deve ser aplicado com antecedência ao plantio da batata, utilizando-se, de preferência, materiais com PRNT elevado. A distribuição do corretivo deve ser feita de maneira uniforme em toda a área, e este, incorporado até 20 cm de profundidade. Caso o corretivo seja incorporado em maiores profundidades (30 cm), a quantidade precisa ser maior e deverá ser distribuída a lanço, metade antes da aração e metade após, com posterior gradagem. Para melhores resultados, a incorporação deve ser homogênea, proporcionando o máximo contato do corretivo com as partículas de solo, favorecendo, assim, a reação de neutralização da acidez.
O gesso agrícola não possui poder corretivo de acidez, mas pode ser utilizado como excelente fonte de Ca e S, bem como, para redução da atividade do Al tóxico nas camadas mais profundas do solo.