Plantio - Embrapa Hortaliças

Plantio

A mandioquinha-salsa é propagada vegetativamente, ou seja, por meio de mudas, feitas a partir de propágulos (rebentos ou perfilhos) da coroa das plantas. 

Em determinadas condições climáticas, a planta produz sementes viáveis. Mas, essas sementes apresentam variabilidade na progênie e baixa viabilidade, sendo muito importantes em trabalhos de melhoramento genético, não se prestando porém à propagação comercial.

A produção de mudas é fase primordial na cultura da mandioquinha-salsa e algumas práticas devem ser consideradas pelos produtores visando à melhoria da qualidade do processo e do produto.

Na prática, muitas vezes, o que se vê é o preparo das mudas sem o devido cuidado, em geral por ocasião da colheita em qualquer campo comercial, sem uma efetiva seleção de plantas matrizes, realizando o corte direto na touceira com canivete ou faca.

A recomendação básica é: 1. Escolha das plantas selecionadas; 2. Destaque dos perfilhos; 3. Lavagem; 4. Desinfecção com água sanitária a 5% por 5 a 10 minutos; 5. Enxague; 6. Secagem à sombra e; 7. Corte com estilete.

O primeiro passo é a escolha criteriosa de plantas matrizes, com boa sanidade e vigor, que podem ser adquiridas junto a outros agricultores viveiristas ou a partir de campos próprios. Preferencialmente, devem-se usar mudas juvenis, ou seja, mudas ainda vigorosas.

A manutenção das mudas, às vezes necessária entre a colheita e o plantio subsequente, deve ser feita com as touceiras inteiras, sem que se destaque os perfilhos. As touceiras devem ser mantidas à sombra, após retiradas as raízes e as folhas, quando presentes, mantendo a base da planta em contato com o solo. Deve-se molhar, em média, duas vezes por semana.

O preparo inicial das mudas consiste do destaque dos perfilhos, que são então embalados em sacos do tipo de cebola ou batata, e lavagem em água corrente ou por imersão para retirada do excesso de impurezas (Figura 6).

Segue-se o tratamento fitossanitário dos perfilhos. Recomenda-se a imersão por 5 a 10 minutos em solução de água sanitária comercial (teor médio de 2,0 a 2,2% de hipoclorito de sódio), a 5% de diluição.

Após secos, efetua-se o corte basal dos perfilhos e, se necessário, o acabamento (corte) dos pecíolos (iniciação das folhas). Esse corte basal deve, quando necessário, promover o aumento da área de enraizamento, o que é feito quando os perfilhos são compridos e de pequeno diâmetro (<1cm), efetuando-se o corte em bisel, isto é, em ângulo inclinado.

É fundamental usar ferramenta afiada e lâmina chata que corte os perfilhos sem rachá-los. Sugere-se um estilete comum (Figura 7). O corte bem efetuado, sem que o perfilho lasque, proporciona melhor inserção de raízes na coroa. Conforme a variedade, a época do ano e o método de plantio utilizado (diretamente no local definitivo, pré-enraizamento em canteiros ou pré-brotação em água), deve-se deixar de 1 a 3 cm de reserva. O acabamento dos pecíolos deve ser feito deixando de 1 a 2 cm da brotação.

  

Figuras 6 e 7. Mudas de mandioquinha-salsa sanitizadas e mudas em detalhe com ferramenta usada para seu preparo. (Fotos: Nuno R. Madeira).

Preparadas as mudas, elas podem ser plantadas por diferentes métodos. O plantio diretamente no local definitivo ainda é o método usado pela grande maioria dos produtores no Brasil. O plantio é realizado no topo das leiras, entre 3 e 5 cm de profundidade. Observa-se frequentemente grande desuniformidade de emergência e, consequentemente, desuniformidade também no ponto de colheita em função de diferentes idades fisiológicas das mudas dentro de uma mesma touceira, o que leva também a haver vigor diferenciado entre elas. 

A técnica de pré-enraizamento consiste basicamente em promover o enraizamento das mudas em canteiros devidamente preparados, sob elevada densidade de plantio, distantes 5 a 10 cm entre si, para então realizar o transplante para o local definitivo (Figuras 8 e 9).

  

Figuras 8 e 9. Canteiros para pré-enraizamento de mudas (Foto: Nuno R. Madeira).

Deve-se preparar as mudas com menor quantidade de reserva, entre 1 e 2 cm. A base dos perfilhos pode ser aproveitada, exigindo, porém, novo corte na base, tendo-se o cuidado de não inverter a posição no momento do plantio.

É interessante o uso de cobertura morta do solo com palhada sem semente, especialmente necessária para a base dos perfilhos, pois estes apresentam grande propensão ao ressecamento devido ao corte na parte superior.

Os canteiros para pré-enraizamento, por vezes chamados de viveiros, devem possuir solo leve, com cerca de 10 cm de altura e largura em torno de 1 m. Não utilizar áreas já cultivadas com outras hortaliças pela possibilidade de haver patógenos como fungos de solo e nematoides que infectem as mudas na fase inicial. 

A irrigação é indispensável, sendo recomendado o método por aspersão. A camada superficial deve permanecer úmida até que se inicie o enraizamento das mudas, por meio de uma ou duas irrigações diárias durante os primeiros 10 a 15 dias. A partir de então, pode-se irrigar a cada dois dias, a depender das condições climáticas. Também, é importante o controle de plantas infestantes.

O cultivo protegido em casas de vegetação ou túneis é interessante e recomendado quando o frio é intenso e há risco de geadas fortes. Quando em épocas quentes e com chuvas excessivas, pode-se utilizar coberturas com as laterais abertas.

O pré-enraizamento não evita 100% das falhas no viveiro, porém reduz muito pela maior facilidade de irrigação na fase inicial e microclima mais propício para as mudas quando se utiliza alguma cobertura. Além disso, quando as mudas estiverem prontas, serão transplantadas apenas as mudas sadias e vigorosas. É viável, inclusive, uma seleção de mudas, baseada em tamanho e vigor, transplantando-as separadamente obtendo-se maior uniformidade no campo. Caso ocorra o indesejado florescimento precoce, as mudas com hastes florais também serão descartadas.

O transplante é feito a partir de 20-25 dias no verão ou 35-45 dias no inverno, após amostragem para verificar se as mudas têm numerosas raízes de pelo menos 0,5 a 1 cm. Estando no ponto ideal, procede-se então o arranquio com auxílio de enxadão. O transplantio no local definitivo, nas leiras, deve ser feito à altura do coleto das mudas. O local definitivo deve ser previamente irrigado.

Após o transplantio, a irrigação deve ser diária até o pegamento, sendo comum ocorrer murcha e perda de folhas, com rápida rebrota. Em poucos dias, ocorre novo enraizamento.

O pré-enraizamento de mudas apresenta as seguintes vantagens: maximização do índice de pegamento; redução de custos com tratos culturais, com maior controle da fase inicial da produção - 150 a 400 m2 de viveiro para 1 ha de plantio; evita a ocorrência de florescimento precoce no campo definitivo; possibilidade de seleção apurada de mudas; uniformização da colheita devido ao estresse causado pelo transplante; possibilidade de escalonamento da produção por viabilizar o plantio em épocas menos propícias. A questão de mão-de-obra, exigindo duas etapas no plantio, é plenamente recompensada pelos benefícios. 

A técnica de pré-brotação, adaptada a partir do trabalho realizado pelo agricultor Roberto Akira Tanji em Araguari, Minas Gerais, consiste basicamente em promover a brotação das mudas em recipientes com água, por cerca de 7 a 20 dias (Figura 10), para então realizar o transplante para o local definitivo.

Deve-se preparar as mudas com menor quantidade de reserva, entre 1 e 2 cm, e com o corte mais plano, sem bisel. As mudas necessitam ter o pecíolo bem formado, com pelo menos 2 cm de comprimento, para que seu ápice esteja acima do nível da água.
Tem-se utilizado como recipientes potes plásticos (do tipo para salada de frutas ou margarina – 200 g) com cerca de 10 cm de diâmetro por 4-5 cm de altura (Figura 11). Efetuam-se 2 furos laterais nos potes de modo a que eles funcionem como regulador do nível da água, deixando uma lâmina d’água de 1,5 cm. Assim, pode-se irrigar por aspersão fina (mangueira, regador ou micro-aspersor) sem risco de encher demais os recipientes. Deve-se completar o nível sempre que necessário, sejam irrigações diárias ou a cada dois dias. Na prática, deve-se começar colocando as mudas com os potes bem inclinados, baixando-se o pote à medida que ele vai ficando cheio. Cabem de 10 a 15 mudas por recipiente de 10 cm de diâmetro. O detalhe final é que as últimas mudas a colocar devem preencher os espaços de modo a que elas fiquem todas na vertical, “bem apertadas, espremidas”, sem risco de virar, o que levaria à sua podridão caso o ápice fique mergulhado.

   

Figuras 10 e 11. Mudas pré-brotadas em água (Foto: Nuno R. Madeira).

A pré-brotação de mudas em água deve ser feita em local protegido de chuvas, em ambiente semelhante à varanda da casa, por exemplo, ou barracão arejado com laterais abertas.

Em épocas muito frias, leva de 15 a 20 dias para o transplantio; em épocas quentes, isso ocorre mais precocemente, de 7 a 10 dias em função do metabolismo mais intenso.

Quando as mudas estão bem brotadas e em fase inicial de enraizamento, ainda que só diminutos calos, procede-se seu transplantio para o local definitivo, que deve ser previamente irrigado. As mudas são repassadas para caixas ou sacos, com manuseio cuidadoso, e levadas para o campo. Deve-se dispor as mudas à altura do coleto e regar diariamente até o pegamento.

A pré-brotação de mudas apresenta as seguintes vantagens: maximização do índice de pegamento (Figura 12); redução de custos com tratos culturais, com maior controle da fase inicial da produção - 40m2 de viveiro por hectare; eliminação da ocorrência de florescimento precoce; possibilidade de seleção apurada de mudas; uniformização da colheita devido à uniformidade de emergência e desenvolvimento; possibilidade de escalonamento da produção. Em relação ao pré-enraizamento, além do menor espaço e tempo, ainda apresenta a vantagem de não utilizar solo, que pode transmitir algum patógeno caso não se tome os devidos cuidados.

Figura 12. Pegamento pleno de mudas pela adoção do uso de pré-brotação em água (Foto: Nuno R. Madeira). 

Alguns produtores utilizam a técnica de pré-brotação em diferentes substratos. Em Santa Catarina, é comum a pré-brotação na serragem (Figuras 13 e 14) por 20 a 30 dias, molhando-se duas vezes por semana, com bons resultados, isso em período frio e com frequentes geadas no campo, protegendo-se assim as mudas, que vão para o campo já brotadas.

   

Figuras 13 e 14. Pré-brotação em serragem, vista geral e detalhe. (Fotos: Nuno R. Madeira).

Também se observa em regiões de Minas Gerais e Espírito Santo a pré-brotação em caixas de areia e em solo de sub-bosque (beirada de mata), porém nesses dois casos é comum haver altas taxas de apodrecimento, no primeiro caso pela propensão ao aquecimento da areia, e no segundo pela presença de microorganismos decompositores de restos culturais da mata.