Summary

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A avicultura comercial representa um dos pilares da produção animal, sendo responsável por uma parcela significativa do abastecimento global de proteína de origem animal. No Brasil, o setor avícola tem papel de destaque na economia, sendo um dos maiores produtores e exportadores de ovos e carne de frango do mundo. No entanto, a intensificação da produção tem imposto desafios sanitários que afetam diretamente a eficiência produtiva, o bem-estar animal e a segurança alimentar. Os sistemas modernos de produção de ovos para consumo são amplamente baseados na criação intensiva de aves em regime de confinamento, caracterizada pela alta densidade populacional nas instalações. Esse modelo, embora eficiente do ponto de vista econômico, favorece a proliferação de ectoparasitas, especialmente ácaros hematófagos, que representam uma ameaça significativa à sanidade e à produtividade das aves (Sulzbach et al., 2022).

A crescente demanda por práticas produtivas mais eficientes tem impulsionado a adoção de diferentes sistemas de criação, incluindo o Sistema Intensivo de Gaiolas (SIG) – amplamente utilizado no Brasil e no mundo – e os Sistemas Intensivos de Produção Livre (SIF), também conhecidos como cage-free. Apesar das inovações em manejo, ambos os modelos apresentam desafios sanitários comuns, como o controle de Dermanyssus gallinae, popularmente conhecido como ácaro vermelho das aves. Esse ectoparasita hematófago é considerado uma das pragas mais prejudiciais à avicultura comercial, podendo causar anemia, estresse, alterações comportamentais e queda no desempenho produtivo das aves (Kilpinen et al., 2005). Sua presença em galinhas poedeiras compromete não apenas a produção e a qualidade dos ovos, mas também o bem-estar animal, sendo um fator agravante para taxas elevadas de mortalidade em plantéis severamente infestados.

Além do impacto direto na avicultura, a capacidade adaptativa de D. gallinae torna seu controle um desafio persistente. Embora as galinhas domésticas sejam seu principal hospedeiro, esse ácaro possui um comportamento oportunista, alimentando-se do sangue de uma ampla gama de animais, incluindo pardais, pombos, faisões, canários, aves silvestres e até mamíferos domésticos, como cães e gatos. Essa característica amplia seu potencial de dispersão, dificultando sua erradicação e tornando-o um problema tanto para a sanidade animal quanto para a saúde pública. Além disso, o ciclo de vida curto, variando entre 7 e 10 dias, e sua capacidade de sobreviver longos períodos sem se alimentar, possibilitam a de novos plantéis, mesmo após a adoção do vazio sanitário (Tucci & Guimarães, 1998).

Os complexos de pragas que afetam a avicultura podem ser classificados em três categorias principais: parasitas permanentes, parasitas temporários e pragas ambientais. O ácaro vermelho das aves se enquadra na categoria de parasitas temporários, mas seus impactos são prolongados, principalmente devido à sua capacidade de sobrevivência no ambiente mesmo sem a presença das aves. No Brasil, esse ectoparasita se destaca como um dos principais desafios sanitários na avicultura comercial, sendo amplamente identificado em galinhas poedeiras criadas em sistemas convencionais de gaiolas. Estudos demonstram que as taxas de infestação por D. gallinae podem atingir de 80% a 90% das galinhas domésticas em diversos países, como Reino Unido, Itália, Sérvia, Japão, Marrocos, Montenegro e Holanda, o que evidencia a relevância global do problema e a necessidade de estratégias eficazes de controle e manejo (Alves et al., 2023).

No Brasil, um estudo conduzido no sul do país revelou que o D. gallinae foi detectado em 98% das armadilhas instaladas nas proximidades de galinhas poedeiras, representando 99% dos ácaros coletados. Além disso, verificou-se que sua ocorrência está fortemente associada aos sistemas de gaiolas convencionais, embora a infestação também ocorra em aviários caipiras e sistemas alternativos de criação. Outro achado relevante desse estudo foi a observação de picos populacionais do ácaro durante o inverno e o verão, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo e estratégias preventivas eficazes ao longo de todo o ano (Faleiro et al., 2015).

A adoção de diferentes sistemas de criação de aves não demonstrou associação significativa com a presença do ácaro, o que corrobora os achados de Sparagano et al. (2009), que identificaram D. gallinae em diversos modelos produtivos, incluindo aviários com gaiolas, sistemas "free-range" em celeiros e sistemas orgânicos. Essa ampla distribuição sugere que a presença do parasita está mais associada às condições ambientais e ao manejo do que ao sistema produtivo em si, reforçando a necessidade de protocolos de biossegurança mais eficientes para minimizar sua disseminação.

Diante desse cenário, garantir a biossegurança dos plantéis avícolas continua sendo um dos principais desafios do setor. A contaminação pode ocorrer em diferentes etapas do ciclo produtivo, impactando diretamente a saúde das aves, a eficiência produtiva e a qualidade dos produtos avícolas. Dessa forma, a redução de fatores estressores, como infestações por ectoparasitas, torna-se fundamental para otimizar a produtividade, reduzir perdas econômicas e garantir a sustentabilidade da produção (Pavan et al., 2022). Além disso, os riscos associados ao ácaro vermelho das aves não se limitam ao setor avícola, visto que esse ectoparasita também pode atuar como vetor de patógenos zoonóticos, representando uma ameaça tanto para os trabalhadores do setor quanto para os consumidores finais.

Portanto, a implementação de estratégias de controle integrado, combinando manejo adequado, monitoramento populacional, medidas de biossegurança e controle químico e biológico, é essencial para minimizar os impactos do ácaro vermelho na avicultura comercial. Considerando sua alta capacidade de dispersão, resistência e impacto econômico, o desenvolvimento de novas abordagens para seu controle e erradicação se torna um objetivo prioritário para o setor avícola, visando não apenas a manutenção da produtividade e rentabilidade, mas também a segurança alimentar e o bem-estar animal.